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[Recap] Jornalismo em Vídeo

22 janeiro, 2010 por Lucas Patrício  
em Capa, Recap, Veja mais 4

Estava olhando o número de matérias minhas publicadas nas revistas da Tambor e resolvi que algumas poderiam ser postadas aqui, e portanto criei a nova categoria Recap. O que talvez seja interessante para o leitor é poder comparar que entre o texto escrito por mim e o resultado final na revista existem diversas modificações feitas pelos editores. No GoLuck, vou sempre postar as versões originais e, quando possível, com algumas curiosidades e bastidores.

A que eu escolhi hoje foi publicada na edição #80 da, então, EGM Brasil. Foi uma das primeiras matérias que escrevi de fato e fruto de entrevistas e análises que ainda podem ser relevantes mesmo após quase dois anos. Entrevistei responsáveis pela programação da GameVideos e GameTrailers, além de um papo com James Rolfe, o Angry Video Game Nerd. As entrevistas eu posto caso vocês solicitem. Boa leitura.

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O outro lado da tela

Entenda por que os programas de TV sobre games no Brasil podem acabar e se a internet pode ser a salvação
POR LUCAS PATRICIO

São duas horas da tarde em Santos, litoral de São Paulo. Emerson Rodrigo chega ao escritório onde trabalha todos os dias de segunda a sexta e liga o videogame. Após algumas horas jogando alguns dos últimos lançamentos, o jovem de 24 anos vai até seu computador e inicia um processo esmagador de pesquisa e composição de textos.

Não é um trabalho muito diferente do nosso, aqui na redação da EGM Brasil. A principal diferença é que essa etapa é apenas metade do serviço de Emerson. Após a exaustiva pesquisa, criação de um texto e revisão, é hora de fazer uma mágica chamada edição.

“Eu sempre gostei de editar porque é na edição onde você pode mostrar os pontos fortes e fracos de um jogo usando imagens. Você lida com a emoção de poder controlar como as coisas serão”, diz o rapaz que já trabalha jogando, escrevendo e editando há quatro anos. Emerson faz parte da equipe de um programa chamado Santa Games, que vai ao ar em uma emissora regional do litoral paulista.

Emerson Rodrigo foi editor de vídeo do Santa Games até 2009

O Santa Games é um programa semanal com 30 minutos de duração que fala exclusivamente sobre games, mostra matérias e análises há 6 anos. Pode parecer muito tempo, mas programas de games na TV não é novidade aqui no Brasil. É fácil lembrar dos clássicos e extintos Stargame, apresentado por Cristiano Gualda na década de 90 e G4 Brasil, que foi apresentado pela dupla Luciano Amaral e Luiza Luiza Gottschalk, de 2003 a 2005.

Mesmo já tendo certa história em território nacional, os programas de videogame na TV hoje já não existem mais. Pelo menos quando falamos de programas em nível nacional em TV aberta. Até Julho, os gamers ainda podiam conferir diversos programas sobre jogos eletrônicos na grade da PlayTV, emissora que transmitia conteúdo jovem na TV a cabo. Os motivos da repentina saída do ar da emissora não foi divulgada e nossa equipe não recebeu respostas da PlayTV até o fechamento desta matéria.

Enquanto isso, nos escritórios do G4 americano, uma equipe inteira trabalha diariamente em um estúdio próprio para produzir o programa X-Play, que vai ao ar todos os dias. “Um dos nossos produtores executivo lidera o time de redatores e de produtores que interagem com as empresas de videogame para poder revisar os últimos jogos lançados. Nós temos uma equipe permanente para gravar todos os dias no nosso estúdio”, nos contou Jonh Riber, vice-presidente de programação e produção do G4 dos Estados Unidos.

A diferença é enorme. Tudo bem que não podemos comparar o mercado brasileiro com o americano, mas as estruturas são tão distintas que o que é produzido no Brasil pode ser considerado uma sobrevivência e não uma maneira de se fazer entretenimento (e dinheiro) com um mercado enorme no mundo todo.

Sammy Anderson sabe muito bem disso. O mineiro de 30 anos se interessou por informática graças aos jogos eletrônicos, no final da década de 80. Sammy começou a trabalhar fazendo produção de vinhetas e de programas para TV em 95, em uma filial da rede Record de Minas Gerais.

Após realizar alguns trabalhos para uma emissora regional de Minas, Sammy recebeu uma proposta como meio de pagamento. “Me deram dois meses ‘grátis’ no horário da emissora. Funcionava assim: eu produziria o programa, corria atrás de patrocinadores, e o lucro seria meu. Após passar os 2 meses, eu teria que me virar para pagar o custo de veiculação do programa”, nos contou Sammy.

Sammy ainda é o responsável pelo conteúdo em vídeo do UOL Jogos

Por falta de verbas e até mesmo de estrutura, o produtor preferiu adotar um padrão que não precisasse de um apresentador na tela. Seriam necessárias câmeras, estúdio, sem contar que era mais um funcionário para dividir o pequeno lucro.

Sammy então chamou um amigo para fazer a narração das matérias, fechou um padrão e criou o Gamehall. “Em pouco tempo, o programa fez um relativo sucesso aqui na região graças à mesmice da programação local. Todos os programas daqui eram baseados na mesma fórmula e o meu era o único com conteúdo diferenciado. Depois de mais ou menos cinco anos, a coisa começou a ficar ruim. A concorrência predatória entre programas de vendas começou a me prejudicar. Tinha um programa de TV, por exemplo, que não tinha nada a ver com games, mas ofereceram para um dos meus principais patrocinadores um valor muito menor do que eu cobrava para que ele patrocinasse o programa deles. Então perdi meu primeiro patrocinador. Na época eu tinha cerca de seis patrocinadores pagando mais ou menos R$800, o que dava pra cobrir os custos e tirar uma pequeno lucro”.

Mas um dos maiores problemas em se produzir algo relacionado a games no Brasil é o apoio comercial. Os possíveis grandes patrocinadores não anunciam em programas regionais, como era o caso do Gamehall e do Santa Games. Os patrocinadores desses programas acabam sendo os lojistas locais, que fazem parte de um mercado muito instável e pouco confiável.

“Após um tempo comecei a ter muitos problemas com inadimplência. Eu vendia um patrocínio de seis meses e recebia só dois, quando muito. Então isso foi me deixando cada vez mais chateado e me obrigou a parar definitivamente com o programa na TV”, concluiu Sammy.

O fim do programa Gamehall coincidiu com uma mudança que estava acontecendo não apenas no Brasil, mas no mundo inteiro. Programas de TV começavam a perder espaço para a Internet que, cada dia mais rápida, possibilitava novas experiências em vídeo.

Internet: vilã ou salvadora?

“A internet ‘roubou’ o espaço da TV, mas ao mesmo tempo ela criou espaços. Quando teríamos chance de ver videoanálises de jogos na TV aberta? O custo da TV é muito caro e não permitiria isso”, diz Sammy.

E esse espaço que a internet abriu, principalmente nos Estados Unidos, foi uma maneira da indústria se adequar as novas tendências. Vários sites surgiram trazendo o novo conceito de revelar jogos por meio de vídeos e informar o jogador não apenas com palavras, mas também mostrando como o jogo será visualmente, uma enorme mudança em uma imprensa que tinha apenas os textos escritos como base em análises e críticas.

John Rieber, vice-presidente de programação do G4 nos EUA

Dessa forma surgiram sites especialistas em vídeos de jogos, como o GameTrailers e GameVideos, que criaram uma nova forma dos jogadores se informarem. No Brasil o site pioneiro em vídeo reportagens sobre jogos foi o UOL. E por ironia do destino, quem foi o responsável por começar essa nova fase do mercado no país foi o mesmo produtor que meses antes havia encerrado um projeto chamado Gamehall.

Sammy Anderson conseguiu entrar em contato com o Akira Suzuki, que trabalha no UOL Jogos, por meio de um vídeo do Gamehall que ele postou no site Youtube. Suzuki o apresentou para o editor da estação de jogos do UOL, Fabio Pancheri. “Mandei uma amostra de um vídeo, o Fábio gostou do trabalho e em pouco tempo estava trabalhando para o UOL. Fechamos um pacote de serviços e o UOL foi o primeiro site brasileiro a ter conteúdo de reportagens de jogos em vídeo na grade semanal”, completou o produtor que saiu da TV direto para a internet.

Sammy produz o conteúdo para o UOL da mesma forma que produzia para seu programa de TV. Emerson tem praticamente o mesmo trabalho no Santa Games. Ambos trabalham com uma estrutura mínima. Após jogar o jogo em questão – e estar gravando as imagens do mesmo – é preciso todo um trabalho de pós-produção e edição. No caso do Santa Games, ainda é preciso fazer a gravação em um estúdio com a apresentadora e bolar quadros extras para preencher todo o espaço de cada edição semanal.

Linn Demian, produtor de conteúdo do GameVideos

Sabendo de toda essa complexidade, é possível afirmar que produzir para a internet é mais fácil que para a TV, já que na rede é normal utilizar diversos tipos de qualidade de imagem, áudio, não existe custo de veiculação e o equipamento pode ser mais simples. Isso sem falar que às vezes apenas uma pessoa produz todo o programa e mesmo assim os ganhos comerciais são tão baixos que desanimam. “Se eu trabalhasse apenas por dinheiro eu faria outra coisa. Para trabalhar com games, principalmente na TV, é preciso gostar do que você faz e fazer com gosto”, diz Emerson.

No QG da GameVideos, existe uma equipe de três profissionais que trabalham de segunda a sexta em tempo integral apenas para produzir um programa, o famoso 1UP Show. “O processo que usamos para produzir depende do conteúdo. Para produzir o 1UP Show (the1upshow.1up.com), nós primeiro escolhemos qual jogos queremos cobrir e depois pensamos como poderemos fazer isso. Procuramos na nossa equipe quem tem conhecimento sobre aquele jogo, gravamos discussões sobre ele ou entrevistamos produtores usando nossos cinegrafistas e capturando imagens do gameplay”, nos contou Linn Demian, produtor de conteúdo do GameVideos.com

Esses grandes sites gringos possuem grandes equipes de produção e usam equipamentos caríssimos de captura de vídeo em alta definição. Para pode hospedar esses vídeos também é preciso um servidor muito bom – e caro – conseqüentemente.  Ou seja, os custos para se manter um programa de alto nível na internet hoje em dia é tão alto quanto um de TV. A ilusão que a internet é um meio melhor porque é mais barato deve ser deixado de lado.

Programa "Bonus Round" da GameTrailers

Internet ou TV?

Mas então qual é a grande vantagem da internet? Segundo boa parte dos profissionais que conversamos TV e internet são dois meios muito distintos. A TV precisa gerar audiência para poder ter bons anunciantes. Logo, apenas o publico “hardcore”, por mais fiel que seja, não tem numero suficiente para bancar um programa de games muito específico. O que temos então é a miscigenação de conteúdos como acontecia no canal PlayTV, que unia musica, cinema, cultura pop e games, para atrair o público jovem em geral e não apenas um nicho

Já na internet é possível tentar inovar com formatos que talvez nunca fossem aceitos na TV, como é o caso dos programas de James Rolfe, conhecido na internet como Angry Videogame Nerd, personagem frustrado que joga – e xinga – antigos games das décadas passadas.  Do outro lado da moeda podemos citar o Bonus Round, da GameTrailers, que é um tipo de programa com a cara de TV, onde o convidados discutem sobre alguns temas e jogos em um cenário com toda a estrutura de qualquer programa de televisão.

É difícil afirmar se os programas de games na TV estão destinados a acabar ou permanecer nessa estatura regional. Emerson continua de segunda a sexta indo para produzir o programa e ganhar seu salário que, com sorte, pode ajudar a pagar um curso de nível superior.

Em um mercado como o nosso, que ainda sofre tanto com a pirataria, altos impostos e falta de incentivo, programas de games com fortes estruturas se tornam muito inviáveis. Enquanto isso, vamos ver projetos na internet tentando impulsionar esse mercado, como é o caso do PS3TV (AllTV), WiiTV (Wii Brasil), Arena Turbo (IG) e tantos outros programas que, mesmo em meio a tanta dificuldade, mostram o porque o Brasil pode ser um grande produtor de programas de games, seja na TV ou na internet.

EGM Brasil #80, edição com capa dupla onde a matéria foi publicada



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